Um antimanifesto por uma igreja indígena

Por Fellipe dos Anjos

Reimaginar é subverter, exercitar a fé como dom de transgredir o óbvio. E é preciso crer na licença poética ou na liberdade profética para produzir reimaginações capazes de reavivar o amor pela igreja e reanimar militâncias relevantes a partir desta experiência comunitária.

Reimaginar é indicar a necessidade de uma ruptura radical com as linguagens que utilizamos para organizar nosso mundo e — em se tratando de comunidades religiosas — significa um racha profundo com narrativas e discursos tradicionais, inventados, assumidos e defendidos como verdades absolutas, idealizadas como extensão histórica e
perfeita da revelação de Deus.

Reimaginar é olhar o tempo como um mistério aberto às nossas mais ousadas, disruptivas e utópicas criações. Não podemos perder a fé como essa potência criativa e curiosa. A fé-mistério tal como apresentada pelo revolucionário de Nazaré não pode ser transformada numa fé sistematizada, esquadrinhada, escaneada, normatizada, domesticada
e burocratizada pela teologia e pelas confissões doutrinárias da igreja.

Não confundamos a fé selvagem da reimaginação com as confissões de crenças formalizadas que bloqueiam qualquer criação. Porque a fé de Jesus de Nazaré — o homem da Presença e Promessa do Reino, categorias que colocam o futuro como experiência do desejo criativo e não da razão controladora — é força criadora, potência de reimaginação,
inventiva por si só, desejosa de que futuros possam ser criados. É a fé do “venha o reino”, do que virá, indeterminável; só podemos imaginar, sonhar e desejar com doses entorpecentes de poesia e sedução. Eu quero a fé do Nazareno sonhador, a fé-mistério de reimaginar.

Não precisa de fé para ser cristão no Brasil. A experiência de fé foi abolida de parte significativa do “cristianismo tupiniquim”. Igrejas que produziram uma experiência comunitária moralista, individualista e controladora e mataram essa dimensão imaginativa, fantasiosa e poética da fé. Por isso não criamos nada de novo. Somos previsíveis, cansativos e desenergizantes. Nossa imaginação está bloqueada por um pressuposto da fé como crença racionalizada na verdade/doutrina. Parece que, no Brasil, você só precisa de crença: memorizar, conservar e reproduzir. Radicalizamos a “idade da crença”, como diria o batista Harvey Cox. A fé selvagem falece lentamente dopada e presa aos aparelhos respiratórios da religião. Eu desligaria a máquina para que a selvageria da fé livre ressuscitasse como o Leão da Tribo de Judá.

A fé como dimensão profunda da humanidade, virou crença como sistema religioso verticalizado e, finalmente, a crença virou management da espiritualidade de commodities: alta performance, alta produtividade e alta disciplina, tudo bem calculado e mecanizado pelos defensores e pregadores da “palavra de deus” — sim, tudo no gênero masculino, porque é isso mesmo: machos defensores e pregadores da palavra de deus. No contexto de igrejas startups, trata-se de gestão masculinizada do mistério: análises do potencial de retorno sobre investimentos emocionais, estratégias de posicionamento de marketing da indústria da fé, técnicas gerenciais aplicadas por pastores executivos e cálculos de rentabilidade existencial para crentes desesperadamente administráveis.

A crença controla tudo: plano de carreira, indicadores de resultados, marketing de conteúdo, Instagram para compartilhar o sucesso espiritual e até coaching existencial para sua alta produtividade em repetitividade religiosa. Sucesso! Você não precisa de fé em grande parte das igrejas do Brasil. É preciso que se diga com todas as letras: essas mecânicas não são privilégios das igrejas declaradamente mercadológicas, como gostam de acusar os históricos. A crença produz seus negócios, também e principalmente, em instituições tradicionais, ambientes altamente normatizados e que sofisticam suas técnicas disciplinares para alcançar a nova geração de fiéis comportados.

Produções com design teológico neocalvinista, reformadaço e diferentão, mas no fundo modelado para gerenciar pessoas, também. O sucesso da crença tem que passar pelos seus softwares de gestão e controle — teológico, bibliolátricos e templocêntricos. Administradores do sagrado. Executivos do monstruoso deus capitalista travestido de homem-branco-rico e bonzinho, como um bilionário americano que faz filantropias e caridades eventuais às vítimas da história, pecadores de terceiro mundo. Eis o comunismo liberal dos reformadaços brasileiros, ou seria “lavagem verde” dos dividendos capitalizados no mercado das ilusões?

As calculadoras dos futuros estão ligadas, as vidências teológicas em exercício. Perguntem algo complexo aos pastores evangélicos: conhecem todos os caminhos, todas as variáveis, todos os futuros. Eles têm explicação para tudo. E quem julga ter total conhecimento das possiblidades de todas as coisas não precisa de fé, só de uma agenda para administrar o que seus cálculos teo-racionalizados são capazes de apontar. A criatividade, a liberdade e imaginação não são bem-vindas. A fantasia, a poesia e a metáfora, então… Olha onde chegamos, somos religiosos e religiosas de um tipo inédito: avessos e alérgicos às argúcias da fantasia, às travessuras da metáfora e às excitações da poesia.

A rebeldia contra este estado de coisas, a negação crítica destes mecanismos (biopolíticos) de (suposta) gestão do Espírito (ou seja, da nossa relação com Ele) e a afirmação da fé-mistério — como fundo irracional que afirma a abertura da vida, a indeterminação daquilo que se vê, como a certeza frágil de que o que se vê pode ser diferente,
pode ser transformado por um que-virá totalmente desconhecido — facilitam a criação de um ambiente onde novas imaginações sobre a igreja e a teologia podem surgir! Só a fé nazarena, tribalista e passional indetermina a vida. Só ela reabre o futuro às novas invenções e disrupções.

A fé é para quem sabe que a realidade está aberta a possiblidades incontáveis. Reimaginar é, também, um ato político de resistência aos sistemas que pretendem representar a totalidade da verdade. Um ato político obra desta fé-mistério que não se deixa governar pelos determinismos teológicos e sociais desta contemporaneidade colonizadora e fascista.

(…) Minha expectativa é que consigamos des-ocidentalizar ou des–modernizar a teologia e a prática pastoral. Libertar-nos da religião do capital, do individualismo e das relações de poder segundo termos eurocêntricos.
Trabalho para ver surgir uma igreja indígena do Brasil e de suas cidades.

* Trecho do capítulo 35, “Um antimanifesto por uma igreja indígena”, de Fellipe dos Anjos, em: Reimaginar a Igreja no Brasil: 40 vozes evangélicas.