Reimaginar itinerários proféticos a partir de pautas silenciadas

Por Érika Izquierdo Paiva

* Tradução da Webconferência de Érika Izquierdo Paiva. Para assistir o vídeo, acesse aqui.

Certa vez Jesus estava orando em particular, e com ele estavam os seus discípulos; então lhes perguntou: “Quem as multidões dizem que eu sou?” Eles responderam: “Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, que és um dos profetas do passado que ressuscitou”.

Ao que parece as pessoas que seguem a Jesus preferem vê-lo como um profeta “conhecido”, como alguém familiar, interessante mas não diferente. Porque talvez para eles, e ainda hoje para nós, a maneira menos conflitiva de assimilar uma “mensagem” é aquela que repassamos, que já é nossa, de nossa tradição. Mas sobretudo que NÃO é uma ameaça para o que somos ou cremos. O profeta e sua mensagem, se vem de fora, não gostamos. Gostamos do vinho novo em odres velhos.

Mas, sempre, a mensagem profética não nos deve confrontar, deve exceder nossa utopia.

Ernst Bloch diz que o “excedente” é como ter chegado à plena consciência de nossa humanidade mas que isso ao mesmo tempo nos excede e nos demanda nos expressarmos concretamente no social, econômico, religioso, na arte, na música. Bloch diz que devemos buscar instrumentos para transferir esse “excedente” aos fatos: sonhos e esperanças que têm que se tornar utopias concretas.

Mulheres, homens, pessoas da diversidade, de gênero não conformistas, imigrantes sem documentos, deslocados, refugiados, afrodescendentes, indígenas, portadores de deficiência, encarcerados; comunidades de fé sistematicamente atacadas e desempoderadas não tiveram outra saída que ser fiéis à radicalidade da proposta profética, assumiram imaginários, utopias excedentes para resistir nossas distopias cotidianas.

“E vocês, o que dizem?”, perguntou. “Quem vocês dizem que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”.

Este texto tem um enorme potencial subversivo. Pedro declara com coragem a Jesus como o filho do Deus vivo, em um contexto em que esta afirmação é impossível: o Estado romano opressor e violento, que não quer um messias e um sistema religioso que não atribuía a camponeses galileus a filiação divina.

MAS também, esta declaração tampouco é uma mera convenção linguística. A ousadia de pronunciar o RADICALMENTE DIFERENTE/OFENSIVO recebe esse mistério da força e do poder transformador que habita nas palavras que se pronunciam desde a convicção da fé e da esperança, e é desse modo que são libertadoras!

José Esteban Muñoz, filósofo queer cubano estadunidense propõe a desidentificação como uma forma de resistência política em que novas cartografias vão projetando as relações sociais que se constroem para o futuro.

Sirin Adbi Sibai, pensadora síria decolonial, nesta mesma linha nos chama a transcender discursos e categorias que circunscrevem alteridades em cartografias vinculadas a pensamentos hegemônicos. Há que se defender as epistemologias dos Ethos.

Para Muñoz o idealismo político se gesta em processos através de estratégias de linguagem e estéticas para resistir e REimaginar maneiras de ser e ir caminhando juntos a plenitude de uma futuridade.

Hoje por hoje: a sobrevivência, resistência, cura e amor radical na era Trump ou na era Temer:

– A política da coalizão transnacional, a solidariedade e o intercâmbio de conhecimento intergeracional

– O conceito crítico e contencioso de utopia no ativismo, na arte e na academia.

Muñoz rearticula a ontologia do “queerness” a algo que ainda não chega ou não se vive mas que se começa a desejar e a perceber. Nas palavras de Muñoz, queerness “é aquela coisa que nos deixou sentir que este mundo não é suficiente”. Nas nossas poderia ser a esperança contra a esperança do reino.

Estamos no âmbito da palavra profética que tem mistério e poder! Palavras relacionadas à ação. DABAR em hebraico, desencadeando forças e processos

Como disse a feminista negra decolonial de Abya Yala, Yuderkys Espinosa, diante do fracasso do sistema-mundo moderno colonial de gênero será preciso dizer sorriso, será preciso dizer alegria, será preciso dizer encontro, será preciso dizer dança, ritmos, desfrute, eu sou em outros-outras-outres, será preciso dizer sempre temos habitado os sonhos, por isso estamos aqui: não apenas resistimos, hospedamos a felicidade, um tesouro que não poderão nos arrebatar.

Então é preciso transcender o monólogo, compreender não a necessidade mas a existência de lutas de emancipação desde sempre, porque para além das cartografias dominantes, as mensagens e os movimentos proféticos de libertação acompanharam toda a humanidade, como aqueles camponeses da Galileia, desmantelando a distopia em que viviam a partir do excedente utópico, da utopia nomeada: tu és o Cristo, o filho do Deus vivo.

MAS ESTA HISTÓRIA NÃO TERMINA AÍ

Jesus os advertiu severamente que não contassem isso a ninguém. E disse: “É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas e seja rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, seja morto e ressuscite no terceiro dia”.

Jesus dizia a todos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará.”

Jesus é o profeta, é o Messias que sofre. O denominador comum e o escândalo é ter apresentado a este Jesus Filho de Deus como alguém que sofre. Jesus queria calar qualquer visão triunfalista do messianismo, toda vez que seu sofrimento, e o dos discípulos, era inevitável: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.”

Ao decidir assumir este seguimento, assumimos também caminhar questionando o poder, o privilégio e a opressão dentro das comunidades e espaços que buscam ser vozes proféticas radicalizadas. Também são elementos inescapáveis a ser revisados e confrontados diariamente quem quer se comprometer com este Jesus; e nessa cruz que nos convida a carregar não há espaço para as selfies, para egotrip, nem para hipsterismo.

E procurar, como dizia Pedro Casaldáliga, que a Graça e a Compaixão, encham de vinho novo nossa ânfora de barro. Deus mede a eficácia a sua maneira.

Caminhemos esta vida com humildade, com amor transbordante, como um assombro que não se esgota, recuperando a espiritualidade do despojamento como um ato político.

Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier em sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos. Garanto-lhes que alguns que aqui se acham de modo nenhum experimentarão a morte antes de verem o Reino de Deus”.

Michael Warner define queer como um paradigma transgressor que representa “uma resistência mais íntegra e profunda aos regimes do normal”. Para Jesus o reino de Deus é socialmente provocativo, politicamente explosivo. Não é uma realidade transcendente futura, mas um domínio imanente, presente e de caráter queer que está ao nosso redor. O reino nos é apresentado e nos responsabiliza desde o chamado vital da transgressão para vencer a morte dos corpos infelizes, para voltar, como diria Violeta Parra, a sentir profundo como uma criança frente a Deus.