Re-formar e Re-imaginar a partir do amor e da justiça: Uma aproximação em perspectiva de gênero

Por Priscila Barredo Pantí

* Tradução da Webconferência de Priscila Barredo. Para assistir o vídeo, acesse aqui.

Introdução

Frase da quarta declaração da Selva Lacandona, do EZLN, em 1996:

“O mundo que queremos é aquele em que caibam muitos mundos. A pátria que construímos é aquela em que caibam todos os povos e suas línguas, que a caminhem todos os caminhos, que todos riam, que todos amanheçam.”

Alguns dados:

– “Todos os dias morrem, em média, pelo menos 12 latino-americanas e caribenhas pelo mero fato de ser uma mulher”. De acordo com um relatório da ONU Mulheres, 14 dos 25 países do mundo com as maiores taxas de feminicídio são latino-americanos. De acordo com dados do Observatório da Igualdade de Gênero na América Latina e Caribe, da CEPAL, um total de 2.089 mulheres foram vítimas de feminicídio em 25 países da região em 2014

– Estima-se que 600 homicídios sejam cometidos anualmente na América Latina, motivados pelo ódio e pela homofobia, de acordo com um relatório da Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR).

– Na América Latina, o México é o segundo país com maior número de assassinatos homofóbicos. Está precedido pelo Brasil. Nesses crimes, a maioria dos homicídios é contra homens, seguida pela comunidade trans (travestis, transgênero e transexuais) e mulheres.

Recentemente:

– Denúncias de assédio e abuso sexual em Hollywood: em outubro, elas vieram à luz (Harvey Weinstein), dezenas de mulheres famosas ou não relataram que foram vítimas de abuso e assédio sexual (conhecemos outros nomes como Bill Cosby, o presidente da Amazon Studios Roy Price e o diretor James Toback).

– Estes casos ruidosos serviram para instalar a questão do abuso e aceitação sexual na agenda pública, que anteriormente existia, mas estava invisibilizado e naturalizado.

– Revitimizou-se com a pergunta: “Por que elas não falaram antes?”.

– A campanha global #MeToo ou # EuTambém foi trending topic: meio milhão de tweets encheram as redes. “Se todas as mulheres que foram assediadas sexualmente escrevessem “eu também” poderíamos ter uma ideia do problema.” O que foi bom? “Que milhares de mulheres se juntaram e quebraram o silêncio (homens também). O que não foi bom? O que revela, um crime naturalizado, constante, oculto.

Nos círculos de fé:

– Nosso papel como agentes de mudança, que denuncia e acolhe.

– Abusos e violência TAMBÉM acontecem em nossas igrejas e organizações de fé, e quero referir-me ao abuso e à violência sexual, à violência de gênero. Em 2013, o Instituto Paz y Esperanza publicou a pesquisa “Dentro das quatro paredes – Evangélicos e violência doméstica no Peru”, no qual tornou público, entre outras coisas, o papel de atores eclesiásticos em casos de violência contra mulheres e a infância.

– Conhecemos muitos casos dentro das igrejas e organizações de fé onde esses crimes foram perpetrados, a maioria deles por parte de líderes religiosos.

II. A Reforma Protestante 500 anos depois: Rupturas, contradições e desafios: CELEBRAÇÃO E CONFRONTO

A Reforma Protestante, em meio a suas indas e vindas, foi um importante movimento religioso, político e social que surgiu dentro da Igreja Católica, com base nos questionamentos de mulheres e homens crentes que buscavam a experiência de uma fé cristã acessível a todas as pessoas, e a mensagem libertadora da graça pregada por Jesus Cristo; algo muito distante das indulgências que, especialmente, afetavam as maiorias empobrecidas para as quais, através de um discurso condenatório, eram-lhes negadas as boas novas da salvação e da vida plena. Martinho Lutero, ao tornar conhecidas suas 95 teses em outubro de 1517, causou uma ruptura na história do sistema religioso dominante no Ocidente. Hoje, 500 anos depois, é crucial reler a Reforma Protestante a partir das múltiplas realidades latino-americanas e deixar que o espírito de ruptura nos provoque, de modo que nossa fé cristã seja verdadeiramente reformada e reformadora diante das imposições e interesses dos sistemas hegemônicos que, hoje como ontem, continuam a ameaçar a vida em todas as suas formas, especialmente a vida das mulheres, das crianças, da natureza.[1]

Proponho colocar o processo da Reforma como uma provocação porque, embora Lutero não tenha questionado todos os poderes ou dominações, isso nos mostra possibilidades de transformação, nos desafia a gerar rupturas com o status quo, rebelar-nos, nos incomodarmos já e nos arrependermos, isto é, mudar o caminho e resistir a quem condiciona a salvação, a vida. É uma provocação porque nos conecta a uma luta de libertação em que os poderes são desmascarados e expostos, assim como Jesus fez em seu caminho para a cruz. É uma provocação porque, como igreja, nos confronta com nossas estruturas e paradigmas semeados em uma lógica de poder legitimada por leituras opressoras da Bíblia, em concepções patriarcais da Deidade, do Cristo e da igreja.

A teóloga brasileira Genilma Boehler, em um de seus artigos mais recentes, afirma que “em nossos países se promovem atitudes, marchas, pronunciamentos e até mesmo projetos de lei em casas legislativas contra a ‘ideologia do gênero’. O que observamos por parte dos líderes cristãos (pastores, pastoras, teólogos ou pessoas de partidos políticos) é que eles defendem os regimes patriarcais e sexistas e a naturalização dos papéis hierárquicos de submissão e opressão em uma clara inversão do sentido”. De acordo com Althaus-Reid: “Na América Latina, política e teologicamente falando, as igrejas, como os regimes ditatoriais, tendem a chamar de ‘libertinagem’ aos seus próprios medos”. (2003, 24). (Boehler, 184).[2]

Algumas passagens bíblicas chaves para Reformas hoje:

– A oração de um grande amigo como passagem chave para as Reformas hoje: João 17.20-26 (NVI)

20 “Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, 21 para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. 22 Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: 23 eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.24 “Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste porque me amaste antes da criação do mundo.25 “Pai justo, embora o mundo não te conheça, eu te conheço, e estes sabem que me enviaste. 26 Eu os fiz conhecer o teu nome, e continuarei a fazê-lo, a fim de que o amor que tens por mim esteja neles, e eu neles esteja”.

Nesta última parte de sua oração ele pede uma e outra vez pela UNIDADE, mas como ele tem com o Pai (e indo além, com o Espírito Santo), uma inter-relação não em verticalidade, mas em horizontalidade: “como tu estás em mim e eu em ti”, e que eles, da mesma forma, “estejam em nós”.

É fundamental observar a interconexão existente: o que o Pai deu a Jesus? GLÓRIA, AMOR, UNIDADE que deve ser parte “deles”, dos discípulos e daqueles que crerão (nós): a insistência de Jesus de que TODXS seja UM, assim como ele e seu pai, não está em um sentido romântico ou simples …

Em que consiste essa “glória”? De acordo com Nancy Bedford, em seu texto “Olhar para além da Babilônia”:

Nos relatos do Evangelho descobrimos que esta glória de Deus não tem tanto a ver com um esplendor intangível ou uma luz inefável, mas com uma dimensão ética visível na vida de Jesus: a glória de Deus pode ser vista no modo como Jesus andou e falou. Assim, glorificamos a Deus quando andamos e falamos como Jesus, no e por meio do Espírito. (p.2)

Certamente, a glória de Deus é que os homens vivem em toda a sua particularidade e especificidade, mas não de uma forma que suprima as contribuições ou o potencial das mulheres ou que as mulheres sejam impedidas de florescer como seres específicos e particulares. Na economia divina, não há necessidade de que se diminuam as mulheres para que os homens floresçam — ou vice-versa. No entanto, a teologia muitas vezes opera com esse pressuposto antropológico. Essa é uma das razões pelas quais, apesar de as mulheres serem e são igualmente redimidas por Cristo, a teologia ter sido, na maioria dos casos, usada para reforçar o sexismo na sociedade e na igreja (p.5).[3]

A questão a ser enfrentada, retornando a primeira ideia de ser UM, hoje é: como andar em unidade com quem fala em nome de Deus e usa Sua Palavra para criar medo e ódio? O que significa mostrar essa “glória” de Deus, que é justiça e amor? E qual deve ser o nosso procedimento para que “o mundo” conheça Jesus, o filho de Deus? Silenciar ou falar “em voz baixa” quando outros cristãxs levantam a voz com esses discursos para “salvaguardar” a unidade? Juan José Tamayo nos lembra o estilo de vida de Jesus em relação a assumir posições:

“A paz e a não violência ativa são o legado principal que deixa aos seus seguidores. Agora, seu ideal de paz e sua prática de não violência não tem nada a ver com a submissão ao poder ou a aceitação resignada diante da injustiça do sistema religioso e político. Tem um caráter ativo, crítico e alternativo. Jesus não evita o conflito ou o suaviza, mas o assume e o canaliza pela via da justiça”.[4]

Então, a glória de Deus é fazer justiça, denunciar o mal e as violências em todos os espaços. Não é para se ocultar o abuso contra as mulheres, meninas, adolescentes e adultas. É enfrentar o patriarcado que existe em nossas igrejas, organizações, teologias e práticas. E que a igreja de Cristo seja profética diante dos feminicídios em crescimento, desigualdades, exploração sexual, desprezo e silêncio em relação às mulheres.

– O corpo de Cristo: Integração na diversidade

Em uma conferência partilhada em São Paulo, Brasil, em 2015, falei sobre a jornada do corpo pela sexualidade, diversidade e integração:

Em 1 Coríntios 12:12-26, Paulo usa a metáfora do corpo para falar sobre a diversidade dos membros, destacando a importância dos “fracos”, dos “menos honrados” e os “menos apresentáveis” a quem os dominantes da congregação menosprezavam e excluíam. Normalmente, fala-se desta passagem para apoiar a ideia de unidade no meio de certas diferenças que, muitas vezes e quase automaticamente, associamos a personalidade, caráter, habilidades e dons. No entanto, a mensagem paulina é confrontativa e desconfortável para quem ostenta o poder na igreja de Corinto, argumentando que para que o corpo funcione, é indispensável que cada membro seja reconhecido, não discriminado ou posto de lado por seu status social e econômico.Agora, hoje em dia, continuam dominando critérios e ideias de grupos e pessoas com maior poder e influência em nossas igrejas e organizações cristãs? Em caso afirmativo, quais grupos estão sendo excluídos e de que maneiras? Hoje em dia, quem teria que ser incomodado por menosprezar e ignorar o outro devido ao seu status socioeconômico, idade, escolaridade, etnia, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero?[5]

Hoje precisamos olhar para o nosso corpo, o corpo do Cristo, nosso amigo, irmão, que inclui, coexiste e reivindica; um corpo que tem partes feridas e entorpecidas por falta de empatia, solidariedade, cuidado e amor.

A teóloga Ute Seibert ressalta: somos corpos, e é no nosso corpo que experimentamos dor, alegria, abuso, violência, fome e prazer; o corpo é o nosso lugar de bênção e maldição. Participamos do movimento social como corpos; fazendo parte e querendo transformar este corpo social, nos encontramos na comunidade, na igreja – o corpo de Cristo – como corpos, compartilhando um corpo de crenças sobre a vida, a morte e a ressurreição dos corpos; o sistema econômico negocia com os corpos, a cultura os molda e as políticas afetam seu crescimento ou decidem sua exclusão.[6]

Vale a pena lembrar que precisamos de uma reforma onde os corpos das meninas, adolescentes e mulheres de todas as idades (e pessoas sexualmente diversas) deixem de ser considerados pelo sistema patriarcal como território de conquista, que é violado e usado. As mulheres cada vez mais sabem que nosso corpo é nosso território e nós decidimos sobre ele.

III. Que papel devem jogar nossas comunidades de fé em tempos onde o ódio e o medo crescem em nome de “Deus”?

“Igreja reformada sempre se reformando” pode, em termos concretos, ser portadora de uma mensagem de esperança, amor e vida plena, que, em meio à dor e à angústia, proponha reformas, releituras, resistências, reconstruções e reimaginações que venham da prática do afeto e da solidariedade, cujos alcances e efeitos alterem as estruturas que parecem impossíveis de se derrubar.

Proponho algumas pistas INICIAIS para construir círculos de fé plurais e abertos:

1. A releitura bíblica em perspectiva de gênero. Aproxime-se dos textos com outras lentes, das diversas realidades das mulheres (e das pessoas sexualmente diversas), em particular. Muitas das quais estão marcadas pela violência, abuso e discriminação.

2. A despatriarcalização da igreja, que implica uma revisão profunda e sincera das estruturas que durante anos foram legitimadas e não questionadas em nossa peregrinação evangélica. Admitir, por exemplo, que o modelo de organização hierárquica da denominação, ministérios, espaços físicos, projetos, liderança etc., corresponde a uma lógica de dominação de acordo com o sistema patriarcal, será o primeiro desafio a enfrentar.

3. A descolonização de nossas práticas eclesiais, nossas liturgias, mensagens, ensinos, atividades, rituais, formas de relacionamento e também da teologia eurocêntrica-branca-heteronormativa-patriarcal-colonial-adultocêntrica-antropocêntrica que, até hoje e para muitas comunidades de fé, é “A TEOLOGIA”. Em virtude disto, a contribuição das Teologias Feministas Latino-americanas é fundamental para promover mudanças estruturais na igreja, na sociedade e no meio ambiente, pois sua proposta é de uma lógica horizontal, ecológica, cósmica, inclusiva e diversa, na qual valores como a justiça, a igualdade e a solidariedade prevalecem, distanciando-se, por princípio, de qualquer relação fundada em hierarquias que excluam por gênero, raça e classe social e dos modelos teológicos androcêntricos que, historicamente, menosprezaram a participação de mulheres, meninas, crianças, pessoas sexualmente diversas, entre outras

4. Outras ações que devem ser realizadas simultaneamente são a promoção da denúncia, da prevenção, das masculinidades saudáveis, de espaços seguros, o trabalho vinculado a outras redes e coletivos da comunidade, entre outros.

A biblista Irene Foulkes em seu texto sobre “Releitura bíblica em perspectiva de gênero” concluía:

“Estamos comprometidos/as também com a mensagem bíblica de vida plena para todas as pessoas e todo o povo. É por isso que nos entristece quando vemos que, muitas vezes, as doutrinas e práticas das igrejas apoiam o menosprezo e a exclusão das mulheres. Sentimos uma necessidade urgente de trabalhar mais com o estudo e a interpretação da Bíblia. Queremos que sua mensagem contribua não para a subordinação das mulheres, mas para sua promoção, com todos os dons que o Espírito lhes deu. O que queremos? … que as mulheres floresçam! E com elas, todo o seu entorno: o lar, a comunidade, o mundo.”[7]

Por último, neste exercício de RE-IMAGINAR eu vejo:

– Esse mundo aberto, dinâmico e plural onde cabem muitos mundos.

– Um mundo onde se reconheça e se confronte as violências, onde não haja necessidade de explicá-las. Inclusive um mundo onde elas não sejam permitidas.

– Um mundo onde as mulheres de todas as idades, meninas, adolescentes, adultas, são livres e não heroínas. Em que as ruas, igrejas, casas, transportes públicos, locais de trabalho, hospitais, florestas, praias e todos os espaços são SEGUROS, LIVRES DE VIOLÊNCIA E DISCRIMINAÇÃO.

– Um mundo em que a natureza, e nós, como parte dela, nos cuidamos e nos protegemos, não com intenções utilitárias, mas porque reconhecemos que somos um/a só.

– Um mundo em que assumimos a complexidade, o desacordo, o desestruturado, beijando-nos como o lobo e o cordeiro.

– Um mundo onde brincamos e criamos com o movimento de nossos corpos, sentimentos e reflexões, com essa essência do espírito de Deus movendo-se sobre as águas.

– Um mundo onde a glória de Deus não se reduza a canções e slogans cristãos abstratos, mas seja sentida e vista na justiça por aqueles/as que foram expropriados/as ou violados/as em seus direitos.

– Um mundo em que ser corpo de Cristo tem que ver com reconhecer as diferenças porque estas nos enriquecem.

– Um mundo onde Reformar é uma constante, um processo inacabado que realizamos, construímos, tecemos e desenhamos entre todos e todas.

Notas

[1] Citação baseada na conferência apresentada na Cátedra de Teologia da Universidad Bíblica Latinoamericana, La Reforma y las reformas: Aportes inter-contextuales desde América Latina, intitulada: “A Reforma Protestante como provocação para uma reforma sociopolítica hoje: O papel das igrejas evangélicas frente a violência de Estado no México contemporâneo”, 2017 (a conferência ainda não foi publicada).

[2] Boehler, Genilma. “Los abusos y tráficos económicos según los criterios heteronormativos de las teologías cristianas Occidentales” em Revista Vida y Pensamiento, La Reforma y las reformas: Aportes inter-contextuales desde América Latina, No. 37, 2017. Disponível em http://ubl.ac.cr/tienda/index.php?id_product=56&controller=product

[3] Bedford, Nancy. Mirar más allá de Babilonia. Disponível em: http://www.lupaprotestante.com/wp-content/uploads/2011/10/mirar_mas_alla_de_babilonia_bedford.pdf

[4] Tamayo, Juan José. Otra Teología es posible. Pluralismo religioso, interculturalidad y feminismo, p. 75.

[5] Barredo, Priscila. “El cuerpo: travesía por la sexualidad, la diversidad y la integración”, en E as fronteiras teológicas na contemporaneidades: Consulta continental 2015, p. 312.

[6] Seibert, Ute. Hacer teología feminista. Entre el cuerpo y la palabra. http://www.efeta.org/descarga/teologiafeminista.pdf. Texto extraído de la web de la Revista Alternativas, no disponible en la actualidad.

[7] “Primeros pasos: Relectura bíblica en clave de género”, recuperado de: https://issuu.com/ubluniversidad/docs/irene-primeros_pasos_copia