O paradoxo da Reforma Protestante: Uma leitura a partir da descolonização

Por Nicolás Panotto

* Tradução da síntese da Webconferência de Nicolás Panotto. Para assistir o vídeo, acesse aqui.

A Reforma é um fenômeno paradoxal, uma vez que tem muitos brancos, negros e cinzas, concernente tanto a sua história quanto ao impacto de suas propostas, tanto em termos sociopolíticos quanto teológicos e eclesiais.

A visão de descolonização nos ajuda a compreender esse paradoxo.

O conceito de descolonização como uma categoria de análise crítica

– O fenômeno da modernidade está ligado ao da colonialidade

– A construção dos centros de poder tem a ver com a construção de uma imagem sociocultural de superioridade em relação ao outro.

– O fenômeno da colonialidade continua vigente a partir de três perspectivas

a) A colonialidade do poder. As estruturas geopolíticas, como os conceitos de nação e estado, são estruturas que respondem às lógicas ocidentais.

b) A colonialidade do ser. Há uma compreensão homogeneizadora do ser, das identidades, que são caracterizadas em termos de raça, sexualidade, posição social etc.

c) A colonialidade do saber. O conhecimento é poder. E o conhecimento nos priva da razão e abstração acadêmica ocidental.

– Quais são as propostas de descolonização?

a) O sentido da colonialidade nos situa em relação às dinâmicas do poder vigente.

b) A colonização é sustentada na demarcação de uma “diferença colonial”. Esta diferença age de forma paradoxal: por um lado, demarca lugares de poder, embora, por outro lado, também permita uma instância de ação. Os subjugados não são totalmente silenciados.

c) O fenômeno da mimesis. Esta parte do pensamento entre-lugar (Bahbah), pensamento fronteiriço (Mignolo) ou posicionamento fronteiriço crítico (Walsh). Em todo lócus de opressão, sujeitos subalternos pressionam as fronteiras do hegemônico a partir de sua particularidade. Nesse sentido, os sistemas de colonialidade não são absolutos, mas “contaminados” de dentro, com base na ação diversa dos sujeitos.

d) O senso de identidade se transforma em uma categoria crítica. A centralidade nas subjetividades está longe de ser um elemento acrítico em relação às estruturas. Pelo contrário, a diversidade de identidades questiona a homogeneidade e a absolutização que os espaços de poder reivindicam.

– A partir daqui, são necessárias três coisas:

a) Novas práticas de poder. Questionar ou radicalizar os sentidos de democracia, laicidade etc.

b) A emergência de novas subjetividades e seu reconhecimento.

c) Reconhecer que existem outras epistemologias, outras formas de construir o conhecimento, que reconhecem a pluralidade de expressões.

Uma crítica teológica descolonizadora

– Reconhece a dinâmica de poder determinantes nas formas do trabalho teológico como de ser igreja. Nesse sentido, as igrejas e as teologias não podem ignorar seu lugar dentro das dinâmicas da colonialidade.

– A teologia também deve reconhecer sua dimensão sociopolítica intrínseca.

– A teologia e a igreja devem levar a sério os sentidos da pluralidade e da diversidade.

– Precisamos de outras epistemologias teológicas, começando com a compreensão do próprio objeto da teologia – Deus – e do método.

– A teologia não é um discurso de poder opressor ou de dogmatismo institucional, mas um campo de emergência de resistências.

O impacto da Reforma em chave descolonial

– Em termos históricos, não podemos ignorar o contexto colonial da Reforma em diferentes sentidos:

a) Primeiro, porque, como diz Enrique Dussel, o impacto de Lutero está muito relacionado às transformações durante a transição da Europa medieval para a Europa feudal e o lugar particular do norte da Europa.

b) Segundo, porque os “países protestantes” posteriores também aproveitaram a dinâmica colonial para influenciar as colônias, unindo a empresa colonialista com a religiosa e a eclesial.

c) Em terceiro lugar, por mais que a Reforma tenha representado a expressão de um conjunto de atores sociais – não apenas religiosos – que resistiam às lógicas políticas monárquicas, em qualquer caso também foi sustentado na lógica política feudal nascente do momento, a partir de onde foram julgados grupos camponeses e excluídos. Por essa razão, a Reforma, pelo menos em seus começos, não representava os espaços oprimidos de seu tempo, ao contrário do que aconteceu com a reforma radical e os movimentos anabatistas.

– Para além disso, creio que podemos ler o impacto da Reforma em termos descolonizadores nos seguintes aspectos:

a) A Reforma é construída como um lugar crítico para pensar e viver a fé. Vemos isso na abertura em termos eclesiológicos, no papel que tiveram as mulheres (algo que raramente é lembrado), na abertura hermenêutica ao permitir a interpretação individual e comunitária do texto bíblico.

b) A visão de mundo política de Lutero era ambígua, mas concordo com Martin Hoffmann que muitos dos discursos de Lutero – como, por exemplo, a dinâmica entre graça e lei, ou a crítica aos ídolos – implicavam uma “crítica antecipada” aos efeitos de modernidade

c) A teologia de Lutero poderia ser lida como uma crítica descolonizadora se considerarmos alguns elementos centrais de sua teologia:

c.1) A onto-teologia luterana a partir da tensão oculto-revelado como uma forma de abrir os discursos sobre Deus a novos cenários.

c.2) A teologia da cruz e a teologia dos reinos como uma crítica aos poderes. Teólogos da glória e da cruz.

c.3) O conceito de “liberdade cristã” como forma de tornar visível o lugar da identidade, subjetividade e pluralidade como centrais para a hermenêutica, mas mais centralmente como forma de promover a entrega ao próximo.

Conclusões

– Nesta perspectiva, podemos afirmar que o impacto da Reforma é paradoxal, porque responde de alguma forma às exigências da incipiente Europa moderna e seu empreendimento colonial, embora, por outro lado, ofereça práticas e cosmovisões críticas sobre os poderes políticos e religiosos do momento.

– Reconhecer esse paradoxo da Reforma também implica reconhecer o paradoxo na igreja evangélica hoje. Esse paradoxo é algo negativo? De modo algum, exatamente o contrário. Isso mostra que a igreja evangélica é diversa e que essa diversidade desperta sentidos e práticas de resistência, não só dentro da igreja, mas também para a sociedade em geral. Como propõe a teoria da descolonização propõe, é evidenciar essas fissuras e dificuldades nos próprios sistemas religiosos e eclesiais, para a partir daí iluminar outras vozes, outras cores, outras posições.

– Devemos resgatar a dimensão crítica, inovadora e mobilizadora da Reforma. Não existem formas, práticas ou teologias únicas. Deus é o Deus da abertura, do movimento, da mudança. Como pensar isso a partir de sua dimensão política?